Wednesday, November 21, 2007

O Colecionador de Pedras, Resenha Literária

O POETA SILAS CORREA LEITE RESENHA O LIVRO "COLECIONADOR DE PEDRAS"
do Poeta da Periferia Sérgio Vaz
Artigo - Resenha - Silas Correa Leite

As Pedras do Colecionador Sérgio Vaz
A Poesia ganhou a rua. A rua da amargura. E lá se cantou os lamentos dos excluídos sociais. A periferia sociedade anônima e seus brasileirinhos mestiços que, sim têm muito o que dizer; testemunhas humanas desses tempos de muito ouro e pouco pão, de Sem Terras, Sem Tetos, Sem Vozes; de lucros impunes, riquezas injustas, propriedades-roubos, principalmente em globalizados tempos neoliberais de paulistas privatizações-roubos (privatarias) e terceirizações neoescravistas promovidas na calada da noite por um picolé de chuchu. Que negócio é esse mano, do Brasil só ser rico para os ricos, não ser rico para os pobres? Pois é. O Poeta Sérgio Vaz é o redentor dessa labuta, desses cantares, desse povo que tem muito o que dizer também no letral. Sérgio Vaz recolhe as pedras dessas ruas, ele mesmo produz as suas próprias pedras, e, como disse Drumond que sempre “tem uma pedra no meio do caminho”, elas, finalmente foram editadas e, na obra literária “Colecionador de Pedras” de Sérgio Vaz - para não dizer que não falei de flores - trazem à tona o grito desses descamisados.
Porque Sérgio Vaz escreve, declama – quem tem raça e sangue de próprio punho e pulso faz ao vivo - junta os poetas rueiros, cooperativa as palavras e os sentimentos. Vale ao vivo. O livro Colecionador de Pedras é isso: recolhes que explicitam a dor dos oprimidos. Brasileirices. Jogar areia nos nossos olhos? Arear a alma, isto sim, cara pálida. Acender pirilâmpadas. Poesia do chão das ruas abandonadas ao deus-dará, de becos, vielas, cortiços, comunidades, bibocas, favelas, todas cooperativadas num colar de macadames. Trincheiras poéticas. A arte que resiste e berra outros navios negreiros, outras moendas – vai vendo o poder das palavras, ele diz – e prefere Revolução sem R. Esse é o Sérgio Vaz, coração em chamas. Os estilhaços-pinceladas de poemas rueiros, conscientes e inconscientes, que latejam e volatilizam alma e coragem. Uma legião de pedras sem terem palanques, a não ser as comnidades-palanques, as esquinas, bares, casas e acontecências...e sofrências.
Pra mim, as Pedras do Sérgio Vaz são também as sandálias desse Colecionador. Já pensou que cicatrizes? Ave Sérgio: habemus poemas com a cara e a coragem brasileríssima. Resistir no letral? Que possa ser. Poemas-pedras. Quebram vidraças e erguem castelos, derrubam muros, pois, como disse Clarice Lispector, há dias que lambemos paredes. Ainda mais nessa áfrica-utópica-panamérica-sampa da força da grana que ergue e destrói coisas belas... Carbonários, noiteadeiros, marginais, pagodeiros, uni vozes. Até porque tem sempre alguém apontando uma pedra pra nós: uma pedra-olhar de discriminação, de constrangimento, uma pedra-não de falsos sins; uma pedra-toleima, pedra pão dormido, pedra além da casagrande e senzala, pedras esmolas. Mas poetas não são pidonchos. Se a arte é libertação, de alguma maneira podemos resistir na arte. É isso que Sérgio Vaz faz como serventia de ser cidadão e impregnar de lirismo e dor os gritos pairando nos ares dessa desvairada paulicéia de ameríndios e afrodescendentes. E há pedras-lágrimas. O badame dói. A cetra estica, agoniza mas não morre. E ele ainda poeta: “Que a pele escura/Não seja escudo/Para os covardes/Que habitam a senzala/Do silêncio(...)Porque nascer negro é consequência/Ser (NEGRO) é Consciência(...)”. Esse Sérgio Vaz tem a minha cara, a sua cara, a nossa cara, somos milhões descendo para o asfalto da selva urbana de estátuas e cofres, e temos muito o que dizer. Periga ler, tá ligado. Sente o clima? A alma dos acorrentados de alguma maneira vaza. E alguém com sensibilidade e talento coleciona pedras-poemas. E o menino-poeta-rueiro-(porque colecionador tem que andar-se muito) ainda traz a sua infância (pobretriste) consigo: “Não faço Poesia/Jogo futebol de várzea/No papel”. Lindo. Poesia pura. Poéticas fintas garrinchais nos dribles do olhar/sentir/dizer-(se) em fragmentos-closes. O ócio é duro de roer. Ócios do ofício de escrever(se).
Pedras quebram vidraças, desfazem brumas e clareiam espectros. Porque a bala de hortelã que não compramos no farol; porque o olhar humilhante que damos com olhos de palha na rua para os rejeitados, é o mesmo que por dias, anos; de milhares de insensíveis com gatilhos de censura alimentam o ódio daquele que rumina a dor de ser excluído, até um dia o descaminho da falta de estrutura total colocar o serzinho entre a droga e o grito contido, então, com uma arma na mão, o desprezado (dívidas sociais históricas), já não pede, e nem implora, exige - mãos ao alto!
E então, meu irmão, a bala perdida sempre acha o seu alvo-qualquer-um-de-nós com nossos falsos muros de lamentações. “Ah!, é permitido sorrir” – diz Nelson Maca na última capa do livro(...) “Poeta marginal, sugere alguns...depende de que lado da margem...” diz Toni C (Hip-Hop a Lápis) também no mesmo espaço. Mas o arco-íris marrom dói na consciência histórica. Há margens, moinhos, moendas, e há o avesso do haver-se. Subindo a ladeira mora a noite? Sim, meus irmãos: não há sensações no esquecimento. Sérgio Vaz escreve sobre a sua dura realidade emergente, recolhe essas pedras, violências, medos, carências, pensamentos vadios. Ele mesmo é todas as comunidades. Quase todos os heróis são sonhadores?. E coloca a alma para respirar: “No orfanato/As crianças/Pedem esmolas/Com os braços abertos(...)” Anjos caídos agradecem. Antes mesmo que colecionar “pedras”, Sérgio Vaz dá testemunho de seu tempo, de seu povo, de seus tantos lugares. E os cantos desses tempos-povos-lugares. A periferia cooperativada em busca de justiça histórica agradece. Nós temos um sonho. Que a poesia nos liberte de tantas amarras (de todas as matizes e chorumes e escrevivências) dos filhos deste solo. Amém. Saravá, Castro Alves! Nosso cartão de crédito não é uma navalha na alma: é um poema na veia!
Silas Correa Leite, de Itararé-SP, autor de Porta-Lapsos, Poemas
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm

Tuesday, May 22, 2007

Estatuto de Poeta

ESTATUTO DE POETA

Primeiro Rascunho Para um Esboço de Projeto Amplo, Total e Irrestrito

Silas Corrêa Leite
Artigo Um

Todo Poeta tem direito de ser feliz para sempre, mesmo além do para sempre ou quando eventualmente o “para sempre” tenha algum fim.
Artigo Dois
Todo Poeta poderá dividir sua loucura, paixão e sensibilidade com mil amores, pois a todos amará com o mesmo prelúdio nos olhos, algumas asas nas algibeiras e muitas cítaras encantadas na alma, ainda assim, sem lenço e sem documento.
Parágrafo Único
Nenhum Poeta poderá ser traído, a não ser para que a ex-Musa seja infeliz para todo o resto dos dias que lhe caibam na tábua de carne desse Planeta Água.
Artigo Três
Nenhum Poeta padecerá de fome, de tristeza ou de solidão, até porque a tristeza é a identidade do Poeta, a solidão a sua Pátria, sendo que, a fome pode muito bem ser substituída por rifle ou cianureto. E depois, um poeta não precisa de solidão para ser sozinho. É sozinho de si mesmo, pela própria natureza, com seus encantários, mundo-sombra e baladas de incêndio.
Artigo Quatro
A Mãe do Poeta será o magno santuário terreal de seus dias de lutas e sonhos contra moinhos e erranças de gracezas e iluminuras.
Filho de Poeta será como caule ao vento, cálice de liturgia, enchente em rio: deverá adaptar-se ao Pai chamado de louco por falta de lucidez de comuns mortais ou velado elogio em inveja espúria.
Artigo Quinto
Nenhum Poeta será maior que seu país, mas nenhuma fronteira ou divisa haverá para o Poeta, pois sua bandeira será a justiça social, pão, vinho, maná, leite e mel, além de pétalas e salmos aos que passaram em brancas nuvens pela vida. E depois, uns são, uns não, uns vão, uns hão, uns grão, uns drão – e ainda existem outros.
Artigo Sexto
A todo Poeta será dado pão, cerveja, amante e paixão impossível, o que naturalmente o sustentará mental e fisiológicamente em tempos tenebrosos ou de vacas magras, de muito ouro e pouco pão.
Artigo Sétimo
Nenhum Poeta será preso, pois sempre existirá, se defenderá e escreverá em legítima defesa da honra da Legião Estrangeira do Abandono, à qual sabe pertencer, com seu butim de acontecências, ou seu não-lugar de, criando, ser, estar, permanecer, feito uma letargia, um onirismo.
Artigo Oitavo
A infinital solidão do espaço sempre atrairá os Poetas.

Artigo Nono

Caso o Poeta viaje fora do combinado, tome licor de ausência ou vá morar no sol, nunca será pranteado o suficiente, nem lhe colocarão tulipas de néon, dálias aurorais, estrelícias de leite ou dente-de-leão sob o corpo que combateu o bom combate. Será servido às carpideiras, amigos, parentes, anjonautas e guardiões, vinho de boa safra por atacado, mais bolinhos de arroz, pão de minuto e cuque de fubá salgado.


Artigo Décimo

Poeta não precisará mais do que o radar de seus olhos, as suas mãos de artesão sensorial no traquejo do cinzel interior, criativo, sua aura abençoada e seu halo com tintas de luz para despojar polimentos íntimos em verso e prosa, como pertencimentos, questionários e renúncias.

Artigo Décimo-Primeiro

Poeta poderá andar vestido como quiser, lutar contra as misérias e mentiras do cotidiano (riquezas impunes, lucros injustos), sempre buscando pela paz social, ou ainda mamando na utopia de uma justiça plural-comunitária. Quem gosta de revolução de boteco é janota boçal metido a erudição alcoólica e pseudo-intelectual seboso e burguês. Poeta gosta mesmo de humanismo de resultados. De pegar no breu. A luta continua!


Artigo Décimo-Segundo

Poeta pode ser Professor, Torneiro-Mecânico, Operário, Jardineiro, Fabricante de Bonecas, Vigia-Noturno, Engolidor de Fogo, Entregador de Raposas, Dono de Bar ou Encantador de Freiras Indecisas. Poeta só não poderá ser passional, insensível, frio ou interesseiro. Ao poeta cabe apenas o favo de Criar. O poeta escreve torto por linhas tortas (um gauche), poesilhas (poesia rueira e descalça) e ficção-angústia. Escreve (despoja-se) para não ficar louco...para livrar do que sente. O Poeta, afinal, é um “Sentidor”

Artigo Décimo-Terceiro

Se algum Poeta for acusado levianamente de alguma eventual infração ou crime, a dúvida o livrará. E se o Poeta dizer-se inocente isso superará palavras acima de todos e sua fala será sentença e lei. A ótica do Poeta está acima de qualquer suspeita, e ele sempre é de per-si mesmo o local do crime da viagem de existir. Mas pode colaborar com as autoridades, cometendo um crime perfeito. Afinal, só os imbecis são felizes.



Parágrafo Único

Poeta não erra. Refaz percursos. Poeta não mente. Inventa o inexistente, traduz o impossível, delata o devir. Poeta não morre. Estréia no céu.

Artigo Décimo-Quarto

Aos Poetas serão abertas todas as portas, até as invisíveis aos olhos vesgos e comuns dos mortais anônimos, serão abertos todos os olhos, todas as almas, todos os caminhos, todas as chamas, todos os cântaros de lágrimas e desejos, todos os segredos dessa dimensão ou fora dela, num desespelho de matizes.


Artigo Décimo-Quinto

A primeira flor da primeira aurora de cada dia novo, será declarada de propriedade do Poeta da rua, do bairro, do país ou de qualquer próximo Poeta a confeitar como louco, como ermitão ou pioneiro, de vanguarda. Em caso de naufrágio ou incêndio, poetas e grávidas primeiro

Artigo Décimo-Sexto
Não existe Poeta moderno, clássico, quadrado, matemático como pelotão de isolamento, ou só aleijado por dentro, pois as flores e os rios não nascem nunca iguais aos outros, sósias, nem os poemas são tijolos formais. Nenhum Poeta poderá produzir só por estética, rima ou lucro fóssil. Poesia não é para ser vendida, mas para ser dada de graça. Um troco, um soneto, uma gorjeta, um haikai, um fiado pago, uns versos brancos, um salário do pecado, um mantra-banzo-blues. E todo alumbramento é uma meia viagem pra Pasárgada.

Poeta é tudo a mesma coisa, com maior ou menor grau de sofrimento e lições de sabedoria dessas sofrências, portanto, com carga maior ou menor de visão, lucidez, sensoriedade canalizada entre o emocional e o racional, de acordo com a sua bagagem, seu vivenciar, seu prisma existencialista de bon vivant. Poeta há entre os que pensam e os que pensam que pensam. Entre os que são e os que pensam que são. A todos é dado a estrada de tijolos amarelos para a empreita de uma caminhada que o madurará paulatinamente. Ou não. Todo poeta é aprendiz de si mesmo, em busca de uma pegada íntima, e escreve para oxigenar a alma. Afinal, são todos sementes, e sabem que precisam ser flores e frutos, para recriarem, para sempre, a eterna primavera.

Todo aquele que se disser Poeta, assim o será, ou assim haverá de ser

Parágrafo Um

O verdadeiro Poeta não acredita em Arte que não seja Libertação. Saravá, Manuel Bandeira!

Parágrafo Dois

Poeta bebe porque é líquido. Se fosse sólido comia.

Parágrafo Três

Poeta é como a cana. Mesmo cortado, ralado, amassado, ao ser posto na moenda dos dias, ainda assim tem que dar açúcar-poesia

Inciso Um

Poeta também bebe para tornar as pessoas mais interessantes.

Parágrafo quatro

Poeta não viaja. Poeta bebe. E todo Poeta sabe, que o fígado faz mal à bebida.





Artigo Décimo-Sétimo

Poeta terá que ser rueiro como pétala de cristal sacro, frequentador de barzinhos como anjo notívago, freguês de saunas mistas como recolhedor de essências, plantador de trigais amarelos como iluminador de cenários, cevador de canteiros entre casebres de bosquíanos, entre o arado e a estrela, um arauto pós-moderno como declamador de salmos contemporâneos entre extraterrestres.

Parágrafo Único


Poeta rico deverá ainda mais amar o próximo como se a si mesmo, ajudando os fracos e oprimidos, os Sem Terra, Sem Teto, Sem Amor, para então se restar bem-aventurado e poder escrever cânticos sobre a condição humana no livro da vida. Poeta é antena da época. E o neoholocausto do liberalismo globalizador é o câncer que ergue e destrói coisas belas.

Artigo Décimo-Oitavo

A todo Poeta andarilho e peregrino como Cristo, São Francisco ou Gandhi, será dado seu quinhão de afeto, sua porção de Lar, seu travesseiro de pétalas de luz. Quem negar candeia, azeite e abrigo ao Poeta, nunca terá paz por séculos de gerações seguintes abandonadas entre o abismo e a ponte para a Terra do Nunca. Quem abrigar um Poeta, ganhará mais um anjo-da-guarda no coração do clã que então será abençoado até os fins dos tempos.

Parágrafo único
O sábio discute sabedoria com um outro sábio. Com um humilde o sábio aprende.

Artigo Décimo-Nono

Poeta poderá andar vestido como quiser, com chapéus de nuvens, pés de estrelas binárias ou mantras de ninhos de borboletas. Nenhum Poeta será criticado por fazer-se de louco pois os loucos herdarão a terra e são enviados dos deuses. “Deus deve amar os loucos/Criou-os tão poucos...” - Um Poeta poderá também andar nu, pois assim viemos e assim nos moldamos ao barro-olaria de nosso eio-Éden chamado Planeta Água. E a estética para o poeta não significa muito, somente o conteúdo é essência infinital.

Artigo Vigésimo

Poeta gosta de luxo também, mas deve lutar por uma paz social, sabendo a real grandeza bela de ser simples como vôo de pássaro, simples como pouso em hangar fantástico, simples como beira de rio ou vão de cerca de tabuínha verde. Só há pureza no simples.

Artigo Vigésimo-Primeiro

Nenhum Poeta, em tempo algum, por qualquer motivo deverá ser convocado para qualquer batalha, luta ou guerra. Mas poderá fazer revoluções sem violência. Poderá também ser solicitado para ser arauto da paz, enfermeiro de varizes da alma ou envernizador de cicatrizes no coração, oferecendo, confidente, um ombro amigo, um abraço de ternura, um adeus escondido feito recolhedor de aprendizados ou visitador de bençãos, ou ser circunstancialmente um rascunhador clandestino de alguma ridícula carta de suicida.


Artigo Vigésimo-Segundo

Mentira para o Poeta significa cruz certa. Aliás, poeta na verdade nunca mente, só inventa verdades tecnicamente inteiras e filosoficamente sistêmicas...

Artigo Vigésimo-Terceiro

Musa-Vítima do Poeta será enfermeira, psicóloga, amante, mulher-bandeira, berço esplêndido, Santa. Terá que ser acima de todas as convenções formais, pau para toda obra. No amor e na dor, na alegria e na tristeza, até num possível pacto de morte.

Artigo Vigésimo-Quarto

Poeta não paga pensão alimentícia. Ou se está com ele ou contra ele. Filha e sobrevivente de uma relação qualquer, ficarão sob sua guarda direta e imediata. Ex-Mulheres serão para sempre águas passadas que não movem moinhos, como velas ao vento de uma Nau Catarineta qualquer, como exercícios de abstrações entre cismas, ou como aprendizados de dezelos íntimos de quem procura calma para se coçar.


Artigo Vigésimo-Quinto

Revogam-se todas as disposições em contrário

CUMPRA-SE - DIVULGUE-SE

Brasil, Cinzas, 1998, Lua Cheia – Do jazz nasce a luz!

Poeta Silas Corrêa Leite, Educador e Jornalista – Membro da UBE-União Brasileira de Escritores

(Texto traduzido para o espanhol pela Poeta Dr. Antonio Everardo Glez, de Durango, México) - Breve tradução para o inglês, francês e italiano.


E-mail: poesilas@terra.com.br – site com obras: www.itarare.com.br/silas.htm

Thursday, April 19, 2007

Cachorro Invisível

Ficção (micro-conto)

Um Cachorro Invisível


Para Nelson OLiveira


Eu tenho um cão invisível. Ele só me aparece quando o chamo, e nem poderia ser diferente, claro. Não tem nome. Não tem raça que preste, muito menos pedigree, nem se parece com nenhum humano que se preze, se é que existe humanus que se preze. Chamo-o de cão, digo, venha cão, ele vem todo manso e cordeirinho como um iô-iô paraguaio, digo sente cão, ele senta como um tosco carrinho de rolimã fuleiro, digo abane o rabo pa mim, cão, e ele abana o seu cinza rabo invisível com seu pequeno relho balançando no meio das pernas. É muito prático, funcional. Faz muito sentido pra mim. Por ser invisível, não late e nem morde. Não existe som de invisibilidades, nem estética de nada e ninguém. Ele, o cão, não urina pela casa delimitando o território que é só meu, só eu urino amarelo-fedido, regurgito sopa de letrinhas e vomito cerveja velha no tapete das etiquetas. Ah, às vezes, mas só às vezes, chamo-o de Sansão, de Átila, de Sabonete, de Rex, de Tintim, de Marechal – em memória-nojo ao que uma caterva de milicos fizeram aos néscios das sociedades anônimas desse meu país entrevado – mas, no geral, ele fica lá na dele, o cão, numa casinha invisível da minha imaginação, e eu no meu casulo de letras e quireras de números. De vez em quando quero levá-lo para passear, mas ele que não é bobo e nem nada, sabe que cão que não late em braile não morde no táctil, e, muito bem sabendo que só existe mesmo na minha cabeça de doente variado, não quer ir, faz pouco caso, senta-se no rabo preso e não sai de si, não vai, não quer roer o osso da toleima, como nem se aventura em pular a carniça da discórdia, resignando indisciplina. Empaca feio. Parece um poste. Penso em dar umas pauladas presenciais nele. Ou trocá-lo por um gato tomba-latas. Penso em comprar uma coleira anti-pulgas (existem pulgas invisíveis como existem liberais corruptos invisíveis?) para forçá-lo a ir comigo por vielas, becos, guetos, casas de tolerância, barezinhos e arredores, mas, depois, imaginem só, imagino-me: eu puxando um cordame de algo que não existe, esperando ele se roçar epiléptico em cantos ocres, babando gosma láctea procurando se encontrar. Vão achar que estou louco. Mas eu sei o que estou fazendo. Sempre soube. Fui precoce nesse pertencimento carbono. Mas esse cão invisível, cachorro de estimação de poeta maldito, não tem rugas, não tem cio, não tem desejo, não precisa cruzar para gerar, só me serve quando me faz companhia em silêncio quase prece, se assovio um roda-cotia na memória ele vem todo serelepe, solícito, se digo passa cão, ele some de supetão, se fico cainho e maleixo ele some de circulação do meu campo de treinos de mimos. É uma beleza. Dou-lhe meu olhar de piedade-avelã, como ração de estima sazonal, dou-lhe minhas lágrimas salgadas – vinagre da alma – quando ele tem sede fantasma, e se ele silenciosamente como um ícaro pede um cafuné em sânscrito eu chuto de vereda e digo passa, passa lazarento, jaguara, pidão, pidoncho, caipora; se ele roufenho rosna encardido e morfético (eu sensorialmente leio lábios de cão) eu paro de escrever com a minha máquina de calibre especial e vou abrir a porta secreta para ele ir defecar o inexistente ou mijar eventual invisível urina lá fora (uma necessidade fisiológica psicológica talvez), clandestino que seja, mas ele não vai nunca, não sai, conhece álgebra árabe, conhece o segredo do desespelho de Alice, manja a filosofia cartesiana, sabe que seu espaço é dentro da minha cabeça, dentro dos meus sete cantos reconhecíveis, sabe que o essencial é invisível aos olhos, então às vezes eu irascível e revoltado com toda a minha vida de “Coiso”, bebo muito para torná-lo mais vivível e interessante, e assim, saturados um do outro vamos-nos indo, unha e acne, eu e meu cão invisível, que apesar de invisível tem muito medo de meu canivete suíço importado e da minha bengala automática de cego de nascença.

-0-

Silas Corrêa Leite – Da Estância Boêmia de Itararé-SP/Brasil
Prêmio Ligia Fagundes Telles Para Professor Escritor
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, 2005
Texto da Série VACA PROFANA
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
E-book ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓ no site
www.hotbook.com.br/rom01scl.htm