Tuesday, October 08, 2013
GOTO, ROMANCE DE SILAS CORREA LEITE
GOTO, Romance
A Lenda do Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé
COMO FOI ESCRITO AO LONGO DE DEZ ANOS, O ROMANCE DE SILAS CORREA LEITE
Queria usar o Rio Itararé num romance, como li grandes romances que tinham rios e veredas como personagens naturais. Primeiro inventei um remador noturno, depois, fã de Quasímodo de Victor Hugo (O Corcunda de Notre Dame), achei por bem com a deficiência do personagem principal, Ari, fazê-lo “andar” nos remos, sua muleta como um remo, e depois surgiu o “voar” na imaginação. Construí o pai, caboclo ribeirinho, matuto, mãos de pardal, a mãe, simplória, submissa, falando por versinhos precários mal rimados, porque o ambiente rio e margem, eram o rio Itararé, o mais belo rio que corre por minha aldeia. Faltava o cais, o píer, o ancoradouro adjunto à um areal e coivara, e a ponte literal, o historial todinho. De onde o menino entrado na adolescência “saía” para viver, navegar nos causos, que acabaram num caos existencial de si mesmo. Os passageiros o entretiam, logravam, enchiam de loas e lorotas. Depois o romance começou a trazer causos cabeludos, do arco da velha. Pronto? Estava inaugurada, por assim dizer, uma tal terceira margem – mágica, fantástica, esplendente - do bendito rio Itararé e suas acontecências ribeirinhas desde os tempos em que a água bebia a onça. Os causos foram indo e vindo, fluindo naturalmente. Troquei alguns, mudei outros, tinha que ser o Ari, depois Goto – feminino de gota (ele se sentia uma gota de água à margem fluvial de um átomo da natureza) – a contá-los, trazê-los, encená-los, vivê-los na primeira pessoa ou não, sempre reproduzindo com pantomina e gestual inerente – feito um Dom Quixote moleque - no teatro cênico das águas, com margens, parágrafos, falas, mais a atlântica hileia verde majestosa beirando de cusarruim a bicho folhudo, marionetes, fantoches, fantasmas, espantalhos, sacis, Zé dos Piolhos e outros mitos náuticos.
Dez anos na labuta, escrevendo, reescrevendo, conferindo, mudando dizeres, dando chutes nas sombras, acrescentando parágrafos, citações, neologismos pertinentes e quadrinhas pastoris, erros e acertos, causos do arco da velha também, como quem conta causo de dia cria rabo de cotia, ou como quem conta um conto inventa um tonto, e vice-versa. Citações folclóricas, popularescas, e o historial entrando em dimensões como se uma encruzilhada do rio, uma zona neutra, zona morta, uma espécie de triângulo das bermudas em Itararezinha, por assim dizer, levando e trazendo causos, seres, almas penadas, mais as contações do presente, passado, futuro, evocadas por vivos, boêmios, pescadores, retrazidas na consciência por mortos, saudosos, perdidos no limbo, mais o dom do Goto Ari, o Arigoto, em fazer a pessoa contar tudo de si e ele literalmente também ser arrancandor de tudo, de sabenças e contencices, de mentiras e remorsos, e poder assim, no seu navegar-aleijado, também poder literalmente viajar na batatinha, lavar a égua, lavar a água... lágrimas e ilusões joviais com suas mãos de água e mente brilhante de um guri atiçado à beira do rio que então o navega no ir e vir, mais as mil e umas noites da canoa Faísca de Aladim no país das risadorias e maravilhas de acontecências...
Quando o romance/novela estava pronto, ainda faltavam aqui e ali pedaços, costuras, arames, estabulações, fechamentos, acertos, remendos, detalhes de um ou outro dos cinco personagens, personagem rio, personagem barco, personagens Ari, Mãe e Pai, os três reis magos, os três mosqueteiros, como ele mesmo brincava de dizer até conversar com almas do além e fantasmas da encruzilhada onde se tornou um transportador deste mundo para outro, do outro para a literatura, claro. Deu trabalho. Com certeza, li mais de mil vezes o livro, buscando erros, palavras fora do contexto, e, com certeza, aqui e ali ainda passaram erros de grafia, acentos, etc. Mas o Goto, que acabou se restando sendo de 432 páginas, citando importantes cidadãos populares de Itararé às pencas, de famosos a popularescos, de pescadores a boêmios, de pintores a músicos, de noiteadeiros a invenções que povoam a própria fauna notívaga de Santa Itararé das Artes, Estância Boêmia pela própria natureza. O Ari na verdade tinha esse “de-quê” de noiteadeiro, então, uma serie desnatural de circunstancias coincidiram de fazer/criar a encruzilhada, o triângulo, a situação de fantástico do livro, tudo cruzando entre fatos, nomes, situações, águas e estrelas, animais silvestres e o cão Sabonete - também mordendo o próprio rabo - lavando a alma-rio do guri, o Goto. Esse é o romance. Os causos trazidos e por ele “dizidos” são de engraçados a tristes, são do tempo de trevas ditatoriais a seres-personagens no rami rami de Itararé, de mentirosos a sábios, de fábulas a lendas, de mitos a histórias pra boi dormir, entre historias que o povo conta... para não dizer de causos fantásticos que costuram a tessitura do que se pode dizer de, novelisticamente romancear. Acho que se firmou ao cabo de tudo um bom livro, gostei do projeto final, do nome, um achado, no historial todo, do inicio ao fim, mais Itararé de novo feito uma Shangri-lá, uma Neverland, uma Pasárgada, uma aldeia-chã com seu berçário-ninhal alumbrado de causos, iluminuras, estrelas, personagens que dizem de um palco iluminado deste meu chão de estrelas, e, também com GOTO quero eu colocar Itararé na consciência do mundo.
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O Autor Para CULTNEWS
E-mail: La-goeldi@bol.com.br
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