Thursday, April 19, 2007

Cachorro Invisível

Ficção (micro-conto)

Um Cachorro Invisível


Para Nelson OLiveira


Eu tenho um cão invisível. Ele só me aparece quando o chamo, e nem poderia ser diferente, claro. Não tem nome. Não tem raça que preste, muito menos pedigree, nem se parece com nenhum humano que se preze, se é que existe humanus que se preze. Chamo-o de cão, digo, venha cão, ele vem todo manso e cordeirinho como um iô-iô paraguaio, digo sente cão, ele senta como um tosco carrinho de rolimã fuleiro, digo abane o rabo pa mim, cão, e ele abana o seu cinza rabo invisível com seu pequeno relho balançando no meio das pernas. É muito prático, funcional. Faz muito sentido pra mim. Por ser invisível, não late e nem morde. Não existe som de invisibilidades, nem estética de nada e ninguém. Ele, o cão, não urina pela casa delimitando o território que é só meu, só eu urino amarelo-fedido, regurgito sopa de letrinhas e vomito cerveja velha no tapete das etiquetas. Ah, às vezes, mas só às vezes, chamo-o de Sansão, de Átila, de Sabonete, de Rex, de Tintim, de Marechal – em memória-nojo ao que uma caterva de milicos fizeram aos néscios das sociedades anônimas desse meu país entrevado – mas, no geral, ele fica lá na dele, o cão, numa casinha invisível da minha imaginação, e eu no meu casulo de letras e quireras de números. De vez em quando quero levá-lo para passear, mas ele que não é bobo e nem nada, sabe que cão que não late em braile não morde no táctil, e, muito bem sabendo que só existe mesmo na minha cabeça de doente variado, não quer ir, faz pouco caso, senta-se no rabo preso e não sai de si, não vai, não quer roer o osso da toleima, como nem se aventura em pular a carniça da discórdia, resignando indisciplina. Empaca feio. Parece um poste. Penso em dar umas pauladas presenciais nele. Ou trocá-lo por um gato tomba-latas. Penso em comprar uma coleira anti-pulgas (existem pulgas invisíveis como existem liberais corruptos invisíveis?) para forçá-lo a ir comigo por vielas, becos, guetos, casas de tolerância, barezinhos e arredores, mas, depois, imaginem só, imagino-me: eu puxando um cordame de algo que não existe, esperando ele se roçar epiléptico em cantos ocres, babando gosma láctea procurando se encontrar. Vão achar que estou louco. Mas eu sei o que estou fazendo. Sempre soube. Fui precoce nesse pertencimento carbono. Mas esse cão invisível, cachorro de estimação de poeta maldito, não tem rugas, não tem cio, não tem desejo, não precisa cruzar para gerar, só me serve quando me faz companhia em silêncio quase prece, se assovio um roda-cotia na memória ele vem todo serelepe, solícito, se digo passa cão, ele some de supetão, se fico cainho e maleixo ele some de circulação do meu campo de treinos de mimos. É uma beleza. Dou-lhe meu olhar de piedade-avelã, como ração de estima sazonal, dou-lhe minhas lágrimas salgadas – vinagre da alma – quando ele tem sede fantasma, e se ele silenciosamente como um ícaro pede um cafuné em sânscrito eu chuto de vereda e digo passa, passa lazarento, jaguara, pidão, pidoncho, caipora; se ele roufenho rosna encardido e morfético (eu sensorialmente leio lábios de cão) eu paro de escrever com a minha máquina de calibre especial e vou abrir a porta secreta para ele ir defecar o inexistente ou mijar eventual invisível urina lá fora (uma necessidade fisiológica psicológica talvez), clandestino que seja, mas ele não vai nunca, não sai, conhece álgebra árabe, conhece o segredo do desespelho de Alice, manja a filosofia cartesiana, sabe que seu espaço é dentro da minha cabeça, dentro dos meus sete cantos reconhecíveis, sabe que o essencial é invisível aos olhos, então às vezes eu irascível e revoltado com toda a minha vida de “Coiso”, bebo muito para torná-lo mais vivível e interessante, e assim, saturados um do outro vamos-nos indo, unha e acne, eu e meu cão invisível, que apesar de invisível tem muito medo de meu canivete suíço importado e da minha bengala automática de cego de nascença.

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Silas Corrêa Leite – Da Estância Boêmia de Itararé-SP/Brasil
Prêmio Ligia Fagundes Telles Para Professor Escritor
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, 2005
Texto da Série VACA PROFANA
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
E-book ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓ no site
www.hotbook.com.br/rom01scl.htm