Wednesday, December 15, 2010

POEMA ANJO DE NATAL, Silas Correa Leite




*

Anjo de Natal



Perguntei bem tristinho
Ao meu Anjo de Natal:

-Por que é que eu sofri tanto?

E ele me respondeu “cerrindo”, feito uma criança encantada de amor:

-Você já se perguntou por que é um Vencedor?

-0-



Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras
E-mail:
poesilas@terra.corm.br
www.portas-lapsos.zip.net

Tuesday, December 07, 2010

Conto Premaido de Silas Correa Leite




Exercícios Urbanos
Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) • Fundação Petrobrás

O vencedor do concurso Exercícios Urbanos do mês foi Silas Correa Leite, com "Beladona e seus vários maridos". Ele ganhará um vale-livros de R$ 300 da Livraria Cultura. Veja também os outros classificados. Curadora: Heloisa Buarque de Hollanda
__________________________________________________________________________________



Beladona e seus vários maridos
Silas Correa Leite


Beladona, ou melhor, a Professora de Ciência, Biologia e Matemática, Benedita Izidrom Castaquali, vulgo Beladona, tinha certamente a fórmula perfeita e muito bem acabada do Verbo AMAR em todos os seus sentidos, até explícitos. Inicialmente cinco era a quantidade exata de sua felicidade plena. A ciência da multiplicação de desejos. A matemática da soma de tanta libido. A biologia da zona de fricção. Casou cedo com um tipinho, por paixão louca, amor a primeira vista e o pai portuga cobrando em cima da barriga de quatro meses, depois amor à prestação, depois tédio conjugal, duplicata vencida do desejo, não satisfeita, claro, deu um pé no traseiro do sujeitinho mais folgado do que a Ângela Ro Ro de cueca, e partiu pro trabalho constante e para o estudo direto e multiplicador de posses e afins. Era mulher de verdade mas não era Amélia, claro.

Anos depois, apagado o pito, sossegado o facho, o segundo marido-homem que lhe deu então, três filhas, Judite Flor, Esther Leão e Nara Estrela. Malemal as meninas fizeram o primário, ela largou o fofo que tinha alguma bufunfa (e valera-se disso) e viveu-se livre, leve e solta. Free Again, dizia. Numa vigem de férias para o litoral norte de São Paulo, festeira que era, toda trancham decolou o terceiro marido vítima. Lá foi morar junto, tentar ser feliz, custasse o que custasse, doesse o que doesse. E pra ela ser feliz era a paixão aloucada, que, por algum motivo, desgaste ou enjôo, não durava muitas luas. Imagine só.

As filhas moças, e a Beladona resolveu comer marmita fora. Terceirizar, por assim dizer. Partiu literalmente para o quarto concubinato-entrave. Traía-se consigo mesma às vezes. Era do feitio amoroso dela. E ali se apoquentou um pouco, achando que, quem comia o filé, haveria de querer comer também o osso. Já pensou, num país latino de histórica machice adquirida? Mas, claro, poderosa, liberal, signo de escorpião em tudo, a Beladona não quis alguém pra envelhecer ao seu lado. Queria jovens na muda. Literalmente deu com os burros nágua. Onde já se viu isso?

O maridinho janota e boçal, gaúcho saradinho da silva, tava com olho torto pro lado de uma outra, dando em cima e embaixo de uma ruiva vizinha pedaçuda, que se aproveitou em desfrute no côncavo e convexo da íntima zona de fricção. E pôs-se chapéu de vaca, com a Beladona ardente ficando fula da vida ao saber do porqueira em tapeação. Benza-Deus. Então a Beladona se aborreceu, correu fazer curso de esoterismo, leu Neruda, ouviu Cauby Peixoto, Pixinguinha, deu-se um tempo que tinha que aprender alguma lição com as cacetadas do verbo existir também. Beladona deu-se um desencargo de consciência, segurou muito bem o tchan, por assim dizer. Mas a vida é madrasta e Deus é pai. E a Beladona na vacância de uma paquera e algumas ficanças...se encafifou, onde já se viu, com um colega de trabalho na escola, professor de sua área. Só por Deus.

Quando se viu, estava multiplicando sonhos e explicitudes gozosas de prazeres e felicidade por atacado. Era o outro marido-vítima da Beladona. Como tudo, em tese, tem começo, meio e fim, a dádiva paixão também por mais pegajenta ou viajosa que seja, o professor foi para outra escola e, tiau. A Beladona azedou a polenta da vida, e, um dia, fui, deu um chega pra lá no frouxo do maridinho-mané, e, novamente, claro, deu Beladona nas pensões alimentícias – ganhava mais do que os machões varões - uma delas para o pai das herdeiras chiques e embonitadas.

Conversa vai, conversa vem, um dia a bendita Beladona estava com olhares maviosos e surgiu com cantada doce de aprendências em labutas. Beladona começou a sondar calendários, renúncias e pertencimentos. Foi nessa. Isso na segunda-feira. Depois, na terça-feira da semana, estranha coincidência, a Beladona com sininhos no coração. Pior foi na quarta-feira, dia de batente, e lá surgiu a Beladona parecendo uma penteadeira sonora de cigana. Ali teria os ex-patos-vítimas? Que nada. Na quinta-feira a Beladona lá estava pendurada em lustre, sem ter lustre. Será o impossível? Desconfiei, encafifado.

Pois não é que, na sexta-feira boêmia depois do dia de gandaia, a Beladona tava, de namorico, assanhada pro forfé? Onde há balaio há tampa, diz o ditado arigó. A Beladona tava jogando em todas as posições de ataque no time do amor? Mala e cuia. Estava saindo com os seis ex e alguns possíveis retornos de quase futuros. Cruzava, cabeceava pro gol e ainda defendia. Já pensou? Ai do amor! Pior: se descansava um sábado, falhava a encomenda de um contato, o ex era convertido crente sabatista de ocasião ou tava de pilequinho-ressaca brava, ela ainda dava uma paquerada por atacado, fogo na canjica das emoções atiçadas. Hormônio? Antes fosse. Antes fosse. Ninguém merece. Domingo ainda ia à feira do bairro sondar um português cheio de gíria, sotaque graúdo e sortido, e com um sapato 48 de tamanho maroto. Não estava encalhada e nem carecida mas, ia com a corda toda, em franca atitude de seduzir e de, nos seixos íntimos dar uma calibrada e pra isso tentando um novo serviço corpóreo de lubrificação corpo a corpo.

Depois, saquei o jogo dela: ela abria-se em leque do maquiavelismo interior, gostava do ex, da segunda-feira, seu primeiro amante, que a tinha inaugurado por dizer assim, um homem que a marcara bem, um cearense de olho azul meio brucutu, espingarda de grosso calibre, ainda que algo zarolho e desengonçado, para explicitar o mimo do vareio de amor. Era o número um na sua cotação marital. Mas fora isso o tipo musculoso era lerdo de raciocínio, néscio por demais, porqueira mesmo. Amontoado em casa, sem cair no batente, dar no couro financeiramente, prover o entojo do lar. Era só primeiro e referencial e pronto. Vá nessa.

O da terça-feira, dizia, era um japonês babaquara mas cheio da grana, o lazarento, filhinho de papai, olho de jabuticaba e cheirando a ouro e cocaína. Dose dupla. Era cotação três na sua pirâmide do amor. Tinha lá seu lado doador, sua ternura explícita, sua marca humanista de dar presentes e alegrar ambientes, e lhe dera carinhoso, mimos, balas importadas e muito amor ao estilo bem oriental.

O da quarta-feira era um safado de primeira. Cusarruim do dianho. Tarado, pervertido por assim dizer, e, pior: amante "caliente", babão, de deixar poesia no criado-mudo, fazer serenatas, improvisar guarânia brega no violão encardido. Declamava Vinicius de Moraes que até o poema parecia delezinho mesmo. Cantava Roberto Carlos melhor do que o Roberto Carlos. Tinha mais voz, tinha peito. As quartas eram nobres, portanto.

O da quinta-feira era um caipora de uma figa, um estrupício de marca maior. Bandido, mas ainda assim porqueira carente, ladrão em jogos de baralhos de clandestinos cassinos improvisados onde montava arapucas para pegar peixe grande. Lidava com traficantes, era amigo de antros de escorpiões de máfias e quadrilhas de contrabandistas informais que posavam de novos ricos neoliberais e traçavam engodos na globalização, até nas privatarias, as tais privatizações-roubos. Levava uma vida peregrina, caçando golpes para se enricar, só faltava mesmo ser das torcidas Mancha Verde ou da Independente Gay, melão em fio de navalha.

Só que o show da vida nas relações amorosas tem que continuar. No sábado de manhã quando algum dos agendados ex falhava, faltava com a palavra ou dava no pira pra uma pescaria ou biscate nova com seio de manga-sapatinho, a Beladona sentia a carruagem de abóbora na alma e pegava desconfio, baixa estima. Mas ainda era o que era, era a Beladona poderosa, o verbo amar era especial pra ela, razão de ser e de viver, não trocava nenhum dos seus tantos por qualquer Brad Pitt da vida ou muito menos Leonardo de Caprio. Onde já se viu?

O da sexta-feira era mais feio do que filhote de cruz-credo atrás de calipial, o último na escala da relação causa e efeito, o que até poderia ser descartável, mas a Beladona o adorava físico e espiritualmente pra custeio e refinamento. Era o seu bibebô sexual, seu inocente, puro e burro, o seu anãozinho de jardim, viçando assim ao seu lado maternal todo freudiano que muito a excitava sexualmente. Vá saber a loucura dos manejos assim.

Repito: no sábado a Beladona punha roupa no varal, a perereca na janela (lavou tá novo), e os abusados, claro, punham, depois dos usufrutos dos desfrutes a bengala pra descansar. Brinquei com ela, que ela deveria por a verdadeira jóia corpórea numa jaula para respirar ar puro e florais de ventos que solam Bach.

Mas a danada confirmou:

– No domingo ainda saio com o Joaquim Madeira, aquele dono de três barracas de pastel na feira. O homem não é fácil. Gamou e eu estou no desfrute.

O danado vai botar palmito na azeitona dela. Panela acesa é que faz freguesia boa?

-0-

Thursday, August 19, 2010

Poema Para o Teleco Sete Cordas de Itararé




Teleco Sete Cordas

Para Teleco, Manoel Alonso Júnior
Boêmio Inesquecível de Santa Itararé das Artes

Poema-Homenagem, In Memoriam

Lá vem o Teleco com o seu violão
Dedilhando um belo samba-canção
Ao lado do Fernando Milcores
Harmoniza o ar com sua sinfonia

Teleco Sete Cordas foi parceiro do meu Pai Antenor
No conjunto regional da Igreja Cruzada
Também esteve solando o nosso chão de estrelas na boemia
De Santa Itararé das Artes toda emperiquitada

Teleco era tranqüilo, sereno, um grande amigo
Trazia uma serena candura consigo
Enquanto varava as noites Itarareenses
Nos bares o violão e a turma, a parceria
Com essa gente seresteira que queria
Passar o tempo; a fauna notívaga de Itararé

Lá vem o Teleco Sete Cordas
Com seu violão companheiro
Com seu jeito todo lueiro
Pontuando momentos e canções
Em bares cheios de gente alumbrada
Lá vai o Teleco dormir que é madrugada
A lua na noite de Itararé desfila alada
E ele vai recarregar a bateria
Para o forfé de um novo dia...

Um dia o Teleco parou com o seu violão
Foi tocar Chão de Estrelas pra Deus
E nos deixou com uma baita saudade até
Mas quando o vento de noite pinta o caneco
A gente acha que é o saudoso boêmioTeleco
Visitando o palco iluminado de Itararé

-0-

Poetinha Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras
Anos 100 da Escola Tomé Teixeira Em Comemoração
Entra Aluno, Sai Cidadão
– Site
www.itarare.com.br
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue: www.portas-lapsos.zip.net




Friday, April 23, 2010

Araken Vaz Galvão e seus Contos Datados em "Pargo e Outras Histórias"




Pequena Resenha Critica

As Contações de Araken Vaz Galvão em seu Belíssimo Livro “Pargo e Outras Histórias”

“Meu destino me chama”

Hamlet - Shakespeare


-Quem toca um ser humano, toca um livro, disse Walt Whitman, poeta-norte-americano, ele mesmo uma tremenda vida-livro. Foi essa frase que me veio à mente, quando coloquei a mão no livro “Pargo e Outras Histórias”, do ex-líder revolucionário (Anos 60/70), escritor, historiador e jornalista Araken Passos Vaz Galvão Sampaio, um brasileirinho bem brasileiríssimo nascido na Bahia e crescido na força e luta, no amor e na dor, nesses sertões de tantos brasis gerais de nosotros - de muito ouro e pouco pão - e mesmo nessa nossa explorada América latina de lágrimas de sangue. Com formação em História e Cinema (Uruguay – na condição de exilado), agora um paladino da cultura que tem um acervo de mais de 2000 livros e batalha como promotor cultural em Valença e redondezas.

Todas as histórias (ficções, memórias, contações, narrativas de luzes e peregrinações) dedicadas a alguém em especial; contas, elos de um mesmo diadema-dilema; sobreviver... As acontecências da vida-livro de Araken geraram um mosaico de escritos de suas andanças, e da obra já diz a prefaciadora Gerana Damulakis: “São histórias essenciais(...) e imprescindiveis, não apenas por capazes de nos cativar, mas porque, além disso, são factíveis de não necessariamente estarem atadas ao tempo e ao lugar onde se passam: elas simplesmente nos alcançam(...).” Escrever é explorar vazios? Pedro Bandeira diz que nos livros estamos todos nós, está a humanidade, estão os registros de tudo aquilo que somos, que amamos, que esperamos, que queremos transmitir para o futuro.

O autor de per-si retrata (in, pg 15 – Confissões, Nada Mais), dizendo na espécie de apresentação da obra: “Não se tratava de fazer apenas aquilo que mais amo: escrever. Tratava-se tão somente de uma maneira de preencher vazios, quase sempre criados pela solidão, fosse ela a solidão sobressaltada da vida na clandestinidade, a nascida por imposição do isolamento nas prisões da ditadura militar, ou ainda a oriunda ao acosso desta mesma ditadura, ou mesmo a do exílio, quando se sente uma solidão sem raízes e povoada de saudades reprimidas(...)” Só os corajosos são sábios, diria Ardis Whitman.

No conto “Amnésia” (pg 19), o autor narra um quase causo, que na interleitura propositalmente pode parecer contradição, pois avança, recua, quase inventaria também, na própria metalingüística que no rol da história parece uma daquelas que o povo conta e é; do oral para o letral. Os contos são datados, como dedicados. “Circulo Vicioso” (D.I.U.) é belíssimo, criativo, cênico. Que filme de vanguarda daria. Já “PARGO” – que nomina o mosaico de ficções – é tristemente denso, ao mesmo tempo que terno, poético, muito lindo. E nele o escritor alumbrado cita Helio Pólvora “Não sou historiador, sou ficcionista – e o que me atrai em literatura é a fantasia, a criação. A exatidão me repugna”. E vai por aí o bolero enlivrado. Em “Laicra, Nunca Mais”, o irônico se acentua, sem o autor perder a mão, antes, feito ourives, dá a cada tópico frasal seu quinhão de vida dura, luta brava, seu olhar sensível, talento criacional também, sem perder a ternura jamais, antes, até gracioso também. No conto “Os Mortos” – talvez o melhor conto do livro – vê-se (lê-se) a dor, o horror, o estertor da vida, a ditadura dos mortos, os coturnos dos mortos-vivos, torturas entre ratazanas. Tristices. E o extraordinário, fantástico. Os zumbis muito depois de Palmares, em tempo de trevas da chamada Canalha de 64 (Millôr Fernandes)?. O que resta é um grito pardo no ar. A datação referenda. Escrito em Montevidéu, 1970. Um auto de exílio?

Em “Amador”, Zac é o personagem belamente historiado. Lindo e gracioso trabalho, das peripécias de um bon-vivant no moreno pais tropical em sua latinidade sensual. Daria um minissérie bem sex-brasilis. Já em “A Volta do Paraíso”, retrata-se a descoberta do amor, a iniciação, nos porões da memória, o sexo, o prazer, a vida, as contundências de. No causo “O Jegue”, a cultura, o folclore, o prisma popular... e as lágrimas. “Pássaro Pintado”, então, é maravilhosamente triste, as tintas (inclusive narrativas) do autor contam/pintam um quadro belíssimo. Ah a desnatureza humana... “Bode Velho”, outro conto, é o menino lembrando, os frutos de ser criança... até desaguar nas palavras que parecem tocar crepúsculos íntimos de cada um, o tempo-rei e seus curtumes; vejamos a qualidade do contar:

“Mas o menino queria falar das laranjas, de Cabrito (o burro baio), da casa onde nasceu, da fazenda Veneza, que era do seu avô, onde ele estava chegando montado em um burro, trazendo um saco de laranjas. O menino queria dizer que ele não era seu próprio avô, não era avô nenhum, que ninguém podia envelhecer assim, tão de repente. Quis gritar. Eu não sou meu avô. Mas só consegui balbuciar “Cabrito, Cabrito”(...)”

Na história “Precisa-se”, o mata-borrão do tempo... os rastilhos das memórias... a mão criadora no auge. Ah as relações humanas ao grau máximo.Verônicas e Walkírias entrelaçam as vidas dos sonhadores... Viver não é grátis, custa caro. A seguir, no mesmo diapasão, o escritor Araken entabula “A Alma Feminina”, feito a vida imitar a arte, a arte musical retratando despertencimentos das trilhas e macadames vida, o José (do poema de Drumonnd?) se indagando “Para onde...”? (E Agora, José?). Confesso que bebi... confesso que vivi (Neruda), ou confesso que sofri? Tudo a ler. E dizem que a alma humana na verdade é feminina... Vá saber... “Tarde demais”, outro trabalho, uma espécie assim de crônica-conto que evoca Mário Quintana, mas é ao mesmo tempo a cara e a coragem do autor, ele também partícipe do açougue das almas. Nunca é tarde demais para lembrar... escrever, dar testemunho, contar; o olhar restaurando cisternas e olhos d´água, fermentações e lamúrias revisitadas, para não dizer que não falou de flores....

“Doce Amargura” diz de contentices e prazeiranças, amargura-ilha, sentimentos de vida, do mundo, dos que resistiram. Sobreviver dói. E a sopa de letras como que se nos alimenta, feito uma angústia-vívere entre rupturas e paradoxos de nós mesmos. A dor da gente não sai no jornal, cantava Paulinho da Viola. Por fim, o último conto, “Ela é Carioca”, em que todo trabalho é feito de pérolas musicais, citações, a beleza da vida, dos corações, os escritos que, afinal, vão dar em nós mesmos, mais os compassos da vida, os companheiros de jornada, a harmonia da criação, a arte de escrever que Araken com qualidade transforma em canção e poesia. Quem toca esse livro toca toda uma vida aberta em páginas preenchidas de uma existência que se reafirma, numa busca, num sonho, no prazer de estar vivo apesar de tudo. Afinal, talvez, só exista uma caminhadura: uma trilha para dentro de nós mesmos. E depois disso, eis a obra, eis o autor, eis o livro, “PARGO e Outras Historias”, um belo testemunho de vida-livro, contos insólitos entre vivências e descobrimentos, feito um espetáculo literário da própria existência, e ainda pela perseverança do escritor ARAKEN VAZ GALVAO.
-0-
Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net

Sunday, March 07, 2010

Vacas no Céu do Interior, Poemas de Ari Marinho Bueno

Pequena Resenha crítica


Livro de Poemas “Vacas no Céu do Interior” de Ari Marinho Bueno



Não era para eu ler esse livro, eu não estava nem aqui, não estava previsto, fora de contexto, aliás, a bem da verdade, esse livro me assustou quando as “Vacas (Poemas!) Do Interior” caíram em minhas mãos de sentidor de uma urbe desvairada S/A, aliás, a bem da verdade, falando sério, VACAS NO CÉU DO INTERIOR (Editora Scortecci, SP) nem era para ter sido escrito. Será o impossível? Como é que pode?

Escrito? Pode ser. Vamos por parte, por pactos, por sentições. Disse. Isso. Que loucura gente-humana. Poemas nada em linhas retas, poemas como as bandeiras de VOLPI, soltos amiúde, dando o que pensar, captar, sentir, ralar no tácito. Perigas ler. Havemos de senti-los... Tudo tem a forma de poesia pura.

Nunca gostei de poetas que escrevem em linhas nada lineares, mas quando li a poesia exuberante de Ari Marinho Bueno capitulei, claro. Arquibaldo Luiz de Oliveira Filho, bacharel em Letras que orelhou o livro, termina a apresentação do autor altamente criativo dizendo que não há impunidade na poesia, nem para o poeta, nem para o leitor. Senti firmeza. É por aí...

Fui abduzido. “Na roça minha mãe enxugava o suor/Do rosto com as palmas das mãos/Diz que era pra não criar calos/A pele sempre fina e macia/Mas era pra não machucar os filhos(...)” – in pg 13, Vívidas.

Os poemas em linhas retas avacalham a estética gráfica e, feito twitter-poeminhos (poemaços) encurtam pavios nada lineares.

I
POVO em as ruas é coisa que não passa: leva
BEM PRA LONGE O FIO-DA-MEADA

(pg 19, sem título, fragmento)

Escutem (leiam) esse achado-pérola rara:

NA
VOCÊ
A HOMEM

O MULHER
NO
MIM

ATÉ
QUE
ENFIM

NÓS
QUATRO
A SÓS

.....................................................................................Lindo! – Bravo!


(! penso eu lendo as Vacas no Céu do Interior:)

Poemas, eu vos leio-vejo. “Respeitas o rude do Concreto?” (pg 23, Catequese do Alegre Plagiador)

Os poemas de Ari Marinho Bueno ins-piram, cobram, desfocam, alardeiam, sugerem, cutucam, instigam, bagunçam o coreto e dizem os veios do poetaço que os enredou, ele mesmo. Irônicos, tristes, alegres, rudes-bonitos, salpicantes (sangue, suor e lágrimas...)

Saquem esse: “O poeta não quer mais saber o porquê/O estupefato que não se afeiçoa/Que não se preza a razão/De um qualquer avanço cataclísmico;/Tsunamis, tornados, manadas de búfalos, enchentes, vá lá, estourou de balcões em festa de aniversário”

Fui pego pela palavra, quero dizer, pego pela poesia?

OU, o haiquase:

boi no pasto
estou contigo
e não abro

Ari Marinho Bueno dá de comer ao poema (citando Murilo Mendes), dá a sua ração de amor, horror, dor, estertor – olhares significativos para poemas cascalhados da vida/morte/sobrevivência (inclusive no sensível dele, ave césio).

Ari com Vacas clareia a poesia. Sorte nossa. E por agora chega. Vão a cata do livro com labiriscas pungentes. Ainda estou abalando com a maravilhante poética dele.

-0-

Silas Correa Leite
www.portas-lapsos.zip.net
E-mail: poesilas@terra.com.br

Wednesday, March 03, 2010

Ideias Noturnas, Livro de Contos, Resenha de Silas Correa Leite




Pequena Resenha Crítica

“Ideias Noturnas - Sobre a Grandeza dos Dias”, Livro de Contos de Eduardo Sabino

“O dia-a-dia não precisa ser extraordinário para
ser interessante. O cotidiano é riquíssimo de assuntos
e acontecências de toda espécie – fora e dentro da gente.
É só ficar com as antenas ligadas – as antenas da
curiosidade dos sentidos e dos sentimentos, de
senso critico, de senso poético, sem
esquecer do importantíssimo e
indispensável senso de humor”

Tatiana Belinsky

Você não consegue ler o livro de Contos “Idéias Noturnas” (Editora Novo Século, SP, 2009, 120 páginas, Série Novos Talentos da Literatura Brasileira) de uma só levada, a um só termo. Você é inesperadamente surpreendido na pegada de lê-lo e saber que tem que respirar a leitura, de alguma forma por si mesmo e de per-si, pontuando-a. Parar. Stop. Voltar a tomar pé e pulso no verbo ler. Reler. Porque cada vez que sondando antevê, “pensa” que é, que sonda o arremedo narrativo do devir, o tema e o andamento, mas tudo o que sentia parecer na verdade não é. Contos incomuns, algo (raros) estranhos, por assim dizer como elogio. Tiram você da lerdeza do ler puro e simples para uma sentição do que lê e admira. Grandeza dos Dias? Dos escritos também.

Os contos de Eduardo Sabino são claramente (literalmente) diferenciados. Escreve com uma boniteza que reveste a surpresa da contação em agradável prazer de leitura. Já ganhador de Concurso, participante de antologias, colaborando com veículos de comunicação, inclusive sites, é também editor da revista eletrônica “Caosletras.blogspot.com”. Nasceu em 1986, e, sendo tão novo e tão bom, denso, contundente que seja, é encanto gratificante sabê-lo e conhecer desenhos da escrita dele nesse novo livro de contos.

Otimamente bem Prefaciado por Rinaldo de Fernandes, que dele aponta com conhecimento de causa: “O protagonista do conto (Purgatório, pg 25) está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado(...). A vida eterna não nos resolve a angústia de viver (Eternas Angústias de um Imortal, pg 29)(...). Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situação de pobreza(...)”. Pois é, ironias, seres (quase-seres/sub-seres), animais, máscaras, monstros, vírus, loucuras... baratas. Doce Lar? Não há nexo na vida real.

Purgatório é sim, um conto sobre um “ser” urbanóide no entre-subsolo de um elevador; sobe, desce, lamurias, contemplações, martírios; reinando. O ser que incabe em si. Desconexões. Vazios. Impertinências (e um olhar ferino) do escritor retratando o ser de si no que vê, sente, repagina; em páginas de restos até porventura rotos que assim sejam. O olhar aproximando da trajetória alheia. “Todos abençoados porque estão vivos. Abençoados porque morrerão” (pg 31). Santo Deus!

Abismo (pg 33) uma das melhores criações do livro. Linda ficção. O abismo é viver; que é ser feliz, que é (talvez?) a própria estupidez de tentar ser Ser... A retina do escritor reformatando aspectos invisíveis, risíveis, verossímeis... criados, imaginários; resgatados também da rudeza dos dias... Sim, diz Eduardo Sabino, é preciso estar muito próximo para conversar a língua do olhar. (Céu Aberto, pg 49). Um roteador de sombras, como um eu-endereço-de-mim, em mim e no outro. “La Sombra”, belo conto, pg. 53, especifica o norte (mote?), o estilo: “La Sombra, a essas alturas um vulto com olhos amarelos e fiapos de cabelo, sugeriu que poderia haver uma esperança se os outros enxergassem melhor o que achavam tratar de meros contornos desprovidos de luz(...).

Eduardo Sabino joga luzes letrais em contornos que redescobre, pincela, amalgamado capta nuances, enlivra desafetos afins, defeitos de fabricação do humanus. De heróis a anônimos, povoando a criação (O Herói e o Escuro, pg 57) a situações-conflitos, rostos e trevas, ideias verbais (aqui noturnizadas). Seres?. Retratando tristezas que nascem e morrem a cada dia. What a Wonderful World?

Banzo (pg 75) emociona, cala fundo. Dói no literal. O melhor dos trabalhos. E por aí vai, O Inquilino, O Jardim Encantado, e outros tantos do mesmo gabarito. Eduardo Sabino relata aspectos (de condições humanas) entre espectros sub-existenciais até. De se ler com prazer, mais, entrar na alma da contação, satisfazer-se, sendo a leitura de “Idéias Noturnas” um imenso (muito) prazer. É o autor com talento dando voz aos desvalidos, aos tantos instantes-trevas da vida, inclusive a fragmentos de vidas retorcidas. Senti-las é isso. Escrever sobre elas, dando peso e fermento; purgações, coisa de quem está fazendo muito bem o que se propõe. In/purezas no pântano da condição humana? O criador se encontra no(a) self?

Nesses tenebrosos dias em que ando muito triste sozinho, escrevendo na pele do espírito a dor de um momento difícil, nervos frágeis à flor da pele, a leitura circunstancial do livro colocou um (algum) certo sentir novo (e revisitado no íntimo) em mim, como se tudo fosse mesmo só isso, cara pálida, nascer, sobreviver, morrer, no durante contorcer-se com a nossa dor, a dor dos outros, e, ainda assim e por isso mesmo captar a grandeza dos dias. Será o impossível? Tudo a Ser.

Entrar no mundo criacional de Eduardo Sabino é ter a sensação de que se lê uma história que nasceu por si mesma, em si mesma, como referendou Julio Cortazar. E assim Eduardo Sabino acertou em cheio, acertou a mão. É do ramo e muito bem conhece do oficio e da linguagem de. Contos para se ler com o olhar, afinando-se na riqueza de quem sabe dar vazão a querelas talvez corriqueiras que parecem sair da esquina do olhar; de um beiço de vida, num clarear de tardes e pertencimentos de seres que também são a nossa cara, pois a existêncialização não é nem uma herança e nem uma evolução apenas, mas, um certo modo de nos envolvermos com o sentido social-comunitário de nos fazermos em cada natureza de criadores e criaturas, feito espécies assim de “antenas” (parabolizadas) de nosso tempo, registrando tudo, doa a quem doer, custe o que custar. E dói muito mais em nós, sentidores, entre prismas e colchas de retalhos com sabenças sensíveis de foro íntimo. Goethe diz que “qualquer coisa que formos capaz de fazermos ou que sonhamos que somos capazes, devemos começar a fazer, pois a coragem traz consigo gênio, poder e magia”.

“Idéias Noturnas” é a magnitude de tudo isso e um rebite a mais. Sintam-se humanóides. Bem-vindos ao mundo literário de Eduardo Sabino e suas fragrâncias de dias cheio de ideias literariamente clarificadas.
-0-
Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, SP, Brasil
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net
Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design, SC