Pequena
Resenha Crítica
Livro “DESVAIRADOS INUTENSILIOS”
do Cyber Poeta Silas Correa Leite
Todas essas criaturas a que chamas animadas,
como aquelas a que negas a vida, sem razão
melhor do que a de não as veres em ação – todas
essas criaturas têm, em grau maior ou menor,
capacidade para o prazer a dor; mas a soma geral
de suas sensações, é, precisamente, aquele total
de felicidade que pertence de direito ao ser divino,
quando concentrado em si mesmo. Edgar Allan Poe
“DESVAIRADOS INUTENSILIOS”, Editora Multifoco, Rio de Janeiro, é o novo
livro de poemas de Silas Correa Leite, o Cyber Poeta tachado pelo site Capitu
de “O Neomaldito da Web” (o autor está em mais de 800 links da net), que no
programa “Provocações”, do Antonio Abujamra, da TV Cultura de São Paulo,
exprimindo sua latente poética da tristeza, disse que “corta os pulsos com
poemas”; também disse que se sente um “E.T.” entre nosotros, e que, “como a
vida não lhe deu limões, fez limonadas de lágrimas”. Pois os poemas da safra
desta nova obra, ““Desvairados Inutensílios””, tem todas essas lágrimas em
contracorrentes, têm esses ácidos multiformes, essas sutilezas esplendentes,
mais catarses, onirismos, surtos-circuitos, correntezas hilárias, delírios,
irrazões, errações e ousadas experimentações, próprio do estilo do autor.
Humor ora discreto, ora rompante, quando não plangente, ou mesmo curto e
grosso. Humor e brevidade, bem próprio desses nossos tempos de correria (e
tantas infovias efêmeras) e amarguras. Galhofa, ironia, na linha de Oswald de
Andrade (poeta da semana da arte moderna), com invencionices, desvarios,
inutensílios, e, claro, dissonâncias de acordes breves. Tudo a ver.
Minimalista? Neoconcreto aqui e ali. Há ainda o dizer no desdizer,
ficando a vertente no implícito, o pulso no tácito, o dizer (fazer poético)
obliquo, a palo seco. Haiquases, sim. Acordes dissonantes na linha do seu
feitio, tipo “Silas e suas siladas”. Conflitos com filtros (olhos obtusos),
briancanças verseiras, twitter-poemas até. O nada-que-é-tudo serpenteando
versos ridentes, risadores. O clic e salta o verbo: insights, iras certeiras.
Já pensou? Inventando o inexistente, o olho mágico é do poeta ou de sua cetra
parideira de poemetos, feito uma metralhadora dialética? O Poeta Silas não oscila
seu deleite derramado.
Tem seu espiral de haikais e tankas diferenciados. Alinhava suas
tessituras – no “tear do silencial de ‘mins’ e h2outros” como muito bem diz ele
– feito até, por que não, um antipoema que ainda é, assim e por isso mesmo,
também, poesia pura. Ou, vá lá, impura como jojobas ácidas. Guloseimas ocres.
Fios (fiações) literais vários, meio neozen, meio Pessoa, Drummond, Bandeira,
Maiakovski, Bertold Brecht, Frederico Garcia Lorca, José Saramago, Manoel de
Barros, Mário Quintana, Robert Bob Dylan Zimermam. Será o impossível? Ai de ti
Babilônia Bandeirantes. Ou a Neverland Santa Itararé das Artes, Cidade Poema, a
terra-mãe do autor, que a canta em verso e prosa e baladas and blues. Poesias
com in/fluências várias, meteoritos-maroteiros. Bulbos letrais.
Marotices literárias. Ler, rir, curtir. Sentir. Bijuterias com alguma
angústia-vívere, mais a solidão-albatroz, um certo medo-coisa, disparates,
instante-trevas (luz). Bulbos-surtos-circutos portanto. Lacre e limo. Lume e
húmus. Humor e técnica de aproximação com a lucidez-loucura. Chorumes e a tal
da bendita (maldita) antilira. Niilismo. Pode uma coisa dessa? “Desvairados
Inutensílios” é isso: pós-Porta-Lapsos (o último livro de poemas do autor),
sendo um boêmico tabuleiro de mixórdias letrais mesmo, avessos de reversos,
experimentações cítricas, quando não pan poesia.
Pensadilhos? Pensamentos trocadilhos, diz ele. Pensagens? Pensamentos
mensagens, diz ele, com seus tantos neologismos do arco da velha. Melhor morrer
de overdose de poesia do que de normalidades hipócritas? Antes sóbrio do que
mal acompanhado, trocadilha o autor, muito bom nisso, textificando ócios do
oficio de tentar ser um Ser. Não é fácil. Escrever poesia é extra/vazar o lume
neutro de fugas, ilhas movediças, facas cegas em palavreiros. Poemas letras de
rock. Poemas histórias em quadrinhos. Mas poemas bem contemporâneos.
A faca é cega mas ainda corta, diz a balada.
Os entrecortes epigramáticos – a faca nos dentes - nos entremeios (e
entreveros) poéticos tem tudo a ver com o que cria o Cyber Poeta Silas Correa
Leite, já elogiado por Moacyr Scliar, Álvaro Alves de Faria (que já o
entrevistou duas vezes na Rádio Jovem Pan), Ignácio de Loyola Brandão, João
Silvério Trevisan, Rodrigo de Souza Leão, Sergio Vaz, Antonio Miranda, Plínio
Marcos, Marcelino Freire, Elio Gaspari, Pedro Maciel, Miltom Hatoum, Araken
Galvão, Antonio Cabrita (Moçambique, África), e outros.
Ítalo Calvino disse “O homem contemporâneo é dividido, mutilado,
incompleto, hostil a si mesmo: Marx o chama de alienado, Freud de reprimido; um
estado de harmonia antigo foi perdido, aspiramos a uma nova totalidade” A
poesia do Cyber Poeta Silas Correa Leite muito bem – e ainda filósofo-irônico -
exprime (e agoniza?) isso. Tempos tenebrosos. Ser Humano é uma desnatureza que
deu errado?
Poesilhas: pois é: lendo o poeta você vê (sente) uma espécie assim de
‘ilha de edição’ – prisioneiro de sua própria existencialização? - que é o seu
contundente fazer poético de louco desvarrido; com seus poemas atirados como se
em garrafas vazias pedindo socorro, resgate, rumo, âncora, casa, paz, lar.
Feito um Homero sonhando uma Itararezinha que talvez só existe mesmo em sua
cabeça, em sua imaginação.
Habemus o cyber poeta a ferro e fogo, cerveja e enxofre, mas, ainda
assim e por isso mesmo, seu mosaico lustral no livro de poemas “DESVAIRADOS
INUTENSILIOS”. Salve-se quem puder.
Periga LER
-0-
Crítico Antonio T. Gonçalves, São Paulo, 2012
Jornalista e Professor Universitário
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